‘O aprendizado não pode ser solitário’

Mestre em educação pela Universidade de Helsinque, Anneli Rautiainen é chefe do Centro de Inovação da Agência Nacional de Educação do governo finlandês. A instituição é responsável pela educação infantil e básica e pela formação de professores no país detentor do título de melhor sistema de ensino do mundo. Anneli já atuou como professora e diretora de escola — conhece, portanto, o assunto em teoria e prática. Este ano, esteve no Brasil em nome do centro que comanda para a assinatura de um acordo com o Instituto Ayrton Senna, parceria que prevê o compartilhamento de informações entre os dois países para a adoção de inovações nas escolas. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu a VEJA.

Muitos educadores estão tentando fazer bom uso da tecnologia em sala de aula, mas muitas vezes ela não leva a lugar nenhum. Por quê? Um dos erros mais comuns aos países que tentam incorporar ferramentas tecnológicas à sala de aula é justamente colocar a tecnologia em primeiro lugar e achar que ela, sozinha, vai resolver todos os problemas da sala de aula. Usar o computador ou o tablet não é o propósito da educação. O importante é integrar o uso destas ferramentas a uma proposta pedagógica que ensine o aluno a pensar.

Por que este modelo mais flexível de matérias conversa com o século XXI? O mercado de trabalho está mudando tão rápido que os jovens vão precisar de habilidades que os tornem indispensáveis nesse mundo novo mundo tomado pela tecnologia. Por isso insisto que é preciso aprender a pensar, ao invés de simplesmente armazenar dados na cabeça. Não podemos esquecer também das habilidades sócio emocionais, tão importantes. Os melhores especialistas da educação estão priorizando a empatia, o pensamento crítico, a criatividade, a colaboração no lugar de um monte de conteúdos.

Como se dá o ensino destas habilidades na Finlândia? Ele está previsto no currículo. Nossos professores sabem, por exemplo, que um estudante do 5ª ano deve aprender a solucionar uma equação básica e a expor seus argumentos sem discutir — e são treinados a propor, eles mesmos, atividades que desenvolvam estas características. Outro ponto que incentivamos em toda o país é que os professores se concentrem, desde cedo, em identificar e ressaltar os pontos fortes de cada criança, para que elas sejam instadas a explorar os próprios interesses.

Os estudantes são nativos digitais. Os professores, não. Cabe aos alunos ajudar seus mestres no contato com a tecnologia? Com certeza. Temos escolas onde os alunos já estão ensinando seus mestres a lidar com o mundo digital. Há alguns anos, uma professora veio falar comigo dizendo que não usaria tecnologia até saber aplicar todos os dispositivos. Disse a ela que esse dia nunca chegaria e sugeri que simplesmente deixasse o computador na sala para ver o que acontecia. As crianças descobriram tudo sozinhas. Não importa quem ensina quem, contando que o aprendizado aconteça. É como a vida funciona, afinal. Quem sabe ajuda os outros.

Isso não esvazia o papel dos professores? Não. Eles continuam a ter função central na educação, mas não são a única fonte do conhecimento. São facilitadores, ativadores do aprendizado. Sua tarefa é estimular o ambiente, encorajar a criança, estar lá para ela.

Como deve ser a sala de aula do futuro? Talvez seja como um restaurante self service mais sofisticado, onde você vai, se serve do que quer, mas conta com suporte. O modelo de hoje, com um monte de alunos sentados olhando para a lousa, vai desaparecer com o tempo. Também tenho certeza de que os professores sempre serão indispensáveis, pois o aprendizado não pode ser solitário. Precisamos de interações, de uma forma ou de outra.

Brasil e Finlândia são países muito diferentes. O que nós podemos aprender um com o outro? Não podemos comparar plenamente as condições devido às diferenças sociais, culturais e históricas. Mas podemos nos ajudar. Espero que o acordo que assinei ajude a desenvolver professores mais atentos às necessidades dos alunos. Li a Base Nacional Comum Curricular brasileira e achei excelente. Está no caminho certo.

Fonte: Veja

Related posts