‘O último índio ainda vai lutar por nós’

Começa hoje (20), no Rio de Janeiro, o Seminário Internacional sobre Atuação Indígena em Pesquisas Colaborativas e Valorização de Conhecimentos, que vai reunir pesquisadores indígenas de 10 países, além de acadêmicos do Brasil e do Reino Unido, para debater a sobrevivência dos costumes dos povos tradicionais dentro do contexto global contemporâneo, além de denunciar ameaças que essas culturas sofrem de governos que não os respeitam. Como valorizar conhecimentos indígenas, que dialogam com outro conceito de tempo/espaço, em um mundo tomado por urgências reais e inventadas? O questionamento será um dos nortes dos debates.

O premiado cineasta Takumã, da etnia Kuikuro, do Alto Xingu, no Mato Grosso, é o porta-voz do evento que vai tratar as sobre urgências dos povos indígenas no país e no mundo. “O foco é fortalecer nossas pesquisas e projetos, além de divulgar nossos trabalhos”, afirma.

Desde o início dos anos 2000, Takumã trabalha em projetos ligados ao audiovisual em aldeias. Como os povos indígenas possuem tradição oral, o cinema acabou por se tornar um importante aliado nos registros das culturas, especialmente em um tempos de intensa influência cultural das cidades, a partir das novas tecnologias. “Estamos registrando nossas histórias. Por exemplo, gravamos um velho indígena por três ou quatro horas. Com isso, registramos o seu conhecimento, que será guardado na comunidade, nos centros de documentação nas aldeias”, disse.

É uma forma de sobrevivência de culturas frágeis no contexto atual. “As novas tecnologias entram nas comunidades indígenas como uma doença. Se espalham entre os jovens e mais velhos. Celular, internet, televisão, tudo isso entra em conflito com uma cultura que não se pode ver diretamente. Temos que entender como usar essas novas tecnologias para que nossa cultura não se perca. Através disso, tentamos fortalecer e documentar nossas histórias”, continua Takumã, que valoriza a parceria de não indígenas que atuam nas comunidades, como antropólogos.

Parceria que carrega o espírito do encontro. “É possível criar novas abordagens e metodologias acadêmicas que incluam e respeitem os conhecimentos ancestrais, de forma igualitária e sem hierarquias?”, questiona a organização, composta pela People’s Place Projects, do Reino Unido, aliada com a Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu (Aikax). Estarão reunidos pesquisadores do Brasil, Colômbia, Dominica, Equador, Índia, Papua Nova Guiné, Quênia, Uganda, Kiribati e Sudão, além de profissionais de 11 universidades do Reino Unido.

Existem nove povos no Alto Xingu que compartilham a cultura Kuikuro, explica Takumã. “Na abertura do evento (que se realiza no Planetário da Gávea), vamos falar sobre o céu do Xingu, sobre como vemos o calendário. Antigamente, usávamos as estrelas. Quando o céu estava de um jeito, era para começar a plantar. De outro, era o início das chuvas. Temos várias tradições e crenças dentro da cultura, e compartilhamos a preocupação com outros indígenas, também de outros países.”

Cultura, mudanças climáticas, direito à terra, preconceito, racismo e valorização dos povos tradicionais estarão em debate. Temas urgentes que compõem a resistência indígena. O presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL), vem esvaziando a proteção a esses povos, tirando autonomia da Fundação Nacional do Índio (Funai), por exemplo, ou anunciando o fim da demarcação de terras. “A situação só piora”, afirma Takumã, ao lembrar que a história indígena de lutas remonta à invasão portuguesa em abril de 1500. “O último índio ainda vai lutar por nós”, sentencia.

Fonte: BRA

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