A reforma nos planos do Capitão

Em todas as votações que antecederam a aprovação do texto-base da reforma da Previdência, Capitão Wagner (Pros) votou a favor da proposta e, portanto, com o governo. Foi contra toda a estratégia de obstrução da oposição, que buscava postergar a definição. Ajudou a viabilizar a votação. Porém, na hora da definição, votou contra o texto-base da reforma.

O Capitão se movimenta com olho em 2020. Ele já havia declarado voto contra a reforma, o que provocou até desentendimentos com a base bolsonarista no Ceará. Mas, Wagner sabe o impacto que esse tipo de propaganda pode ter. Sabe o que aconteceu com alguns dos protagonistas da aprovação da reforma trabalhista, há poucos anos – foram derrotados de forma contundente. Wagner sabe como o voto a favor de uma reforma da Previdência mais branda em 2003 minou a candidatura de Inácio Arruda (PCdoB) a prefeito em 2004. Com o voto contra, Wagner se livra de uma potencial artilharia contra ele em 2020.

Por outro lado, tem um problema político a administrar. No pequeno Pros, precisa de alianças para não ter apenas alguns segundos no horário eleitoral. Ao votar contra a reforma, ele dificulta um acordo. Porém, ao ajudar a base aliada a superar as tentativas da oposição de atrapalhar a votação, ele mantém portas abertas para conversar

Idas e vindas

O deputado cearense Eduardo Bismarck (PDT) chegou a votar pelo fim da discussão e, portanto, a favor da reforma na votação da véspera. Ontem, porém, ele aderiu à estratégia de obstrução e foi contra a proposta do governo.

O PDT não alivia com quem não seguiu a orientação da bancada. Ameaça de expulsão até Tábata Amaral (SP), ex-neoestrela da legenda.

Bismarck parece que não quis pagar para ver.

A força de Maia

Rodrigo Maia (DEM-RJ) foi ovacionado e teve o nome gritado enquanto a reforma da Previdência era aprovada. O presidente da Câmara dos Deputados chorou. Não sei se porque queria muito a aprovação, achava que era muito importante para o Brasil. Ou se pela impressionante demonstração de força.

A reforma é obra de Maia. Não me recordo de um presidente do Legislativo conduzir aprovação de medida tão importante desde que Ulysses Guimarães conduziu a Assembleia Nacional Constituinte.

Maia queria muito a reforma, desde o governo Michel Temer (MDB). Paulo Guedes também queria, mas em termos diferentes. Jair Bolsonaro nunca demonstrou a mesma disposição e o partido do presidente, o PSL, ainda trabalha por mudanças profundas na reforma. O fato é que a reforma que avança não é nem a de Guedes nem a de Bolsonaro. É a de Maia.

A vitória de ontem foi imponente. Foram 379 votos a favor. Em 2003, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aprovou sua PEC com 358 votos em primeiro turno. Em 1998, o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) aprovou mudanças na Previdência com, 331 votos em segundo turno, dois anos após um tumultuado primeiro turno, no qual foram derrotados pontos como idade mínima para servidores, fim da aposentadoria especial de professores universitários e fim da aposentadoria proporcional para os servidores públicos.

O governo Bolsonaro não teve protagonismo, mas ganha com a aprovação. Trata-se, afinal, da grande expectativa do mercado em relação a este governo. Para uma administração tão capenga na articulação política, obter mais votos que os matreiros governos de FHC e Lula é um feito. Ainda mais considerando que é uma reforma bem mais profunda.

Mérito, obviamente, de uma costura terceirizada a Rodrigo Maia. Foi a vitória de um parlamentarismo branco que tenta se insinuar. E que é tolerado enquanto serve aos propósitos do governo. Veremos como será se baterem de frente.

Fonte: O POVO

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