Fumar cigarro eletrônico por 10 minutos equivale a mais de 1 maço

Médico pneumologista alerta que excesso de nicotina em curto período de tempo pode causar arritmia cardíaca, infarto, convulsões e até morte

Os cigarros eletrônicos, também conhecidos como vapes, são proibidos no Brasil, mas podem ser facilmente comprados em lojas online nacionais. Muitas das substâncias usadas nesses dispositivos têm um teor de nicotina que pode ser fatal.

O médico pneumologista Francisco Mazon explica que enquanto um cigarro comum tem entre 1 mg e 2 mg de nicotina, o cigarro eletrônico costuma ter de 3 mg até 5 mg.

“Para fumar um cigarro comum, gasta-se de 1 a 5 minutos. Mas quem fuma um cigarro eletrônico fuma por muito mais tempo. Em 10 minutos, são 30 mg de nicotina, ou seja, o equivalente a um maço e meio de cigarro comum, em um cálculo conservador.”

A nicotina é um estimulante, assim como a cocaína, e seu excesso em um curto espaço de tempo pode provocar reações adversas perigosas no corpo, explica o médico.

“A nicotina age sobre o cérebro, aumentando a dopamina e a serotonina. Mas ela também contrai os vasos e aumenta a pressão sanguínea, acelera o coração e pode provocar infarto e derrame. Também pode causar um ‘curto-circuito’ no cérebro, que é a convulsão, ou no coração, que é a arritmia”, acrescenta o médico, ressaltando que episódios como infarto e derrame podem ser fatais.

Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (agência responsável por regular substâncias como o tabaco) está investigando mais de 120 relatos de convulsões e sintomas neurológicos relacionados ao uso de vapes.

“As convulsões são efeitos colaterais potenciais conhecidos da toxicidade da nicotina e foram relatados na literatura científica em relação à deglutição intencional ou acidental de e-líquido [refil dos cigarros eletrônicos]. No entanto, um aumento recente em relatos voluntários de experiências adversas com produtos de tabaco que mencionaram convulsões ocorrendo com o uso de cigarros eletrônicos (por exemplo, vaping) sinalizam um potencial problema emergente de segurança”, informou a agência em nota.

Além disso, explica Mazon, as cápsulas usadas nos vaporizadores são feitas de um derivado de petróleo, o que pode contribuir para problemas respiratórios como bronquite e bronquiolite.

No documento Cigarro eletrônicos: o que sabemos, a Anvisa listou 21 elementos, além da nicotina, que estão presentes no vapor dos cigarros eletrônicos e seus efeitos no organismo.

Dentre eles estão chumbo, cromo e ferro, que são apontados como agentes cancerígenos para o pulmão. O chumbo também pode provocar danos ao sistema nervoso central e aos rins.

O informativo também cita um estudo recente que concluiu “que que as células epiteliais normais de glândulas, órgãos, e cavidades de todo o corpo, incluindo a boca e os pulmões, que foram expostas ao extrato do vapor, apresentaram vários tipos de danos, entre eles o aumento da ruptura das cadeias de DNA que compromete o processo de reparação celular sendo, portanto, um risco para o surgimento do câncer”.

“As células afetadas pelo vapor também foram mais propensas a apresentar apoptose e necrose levando a morte celular, independentemente da presença ou não de nicotina no cigarro eletrônico. Os autores acreditam que deve haver outros componentes nos cigarros eletrônicos responsáveis pelos danos celulares.”

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Há mais de uma década, o cigarro tem sofrido restrições em ambientes comuns no Brasil. A fumaça, além de incômoda, é tóxica para quem está próximo. Comprovou-se que há danos à saúde de crianças que são fumantes passivas.

“A indústria do tabaco procurou fazer um produto que conseguisse sanar alguns dos problemas sociais do cigarro comum”, observa o pneumologista.

Até o momento, não há comprovações científicas de que os vaporizadores façam mal a quem esteja do lado do fumante. “Mas isso não significa que não existam [danos], apenas não há estudos que comprovem”, ressalta.

Atrativo para crianças e adolescentes

Os vaporizadores são comercializados como aparelhos eletrônicos, chegam a custar mais de R$ 500, e algumas versões possuem até caixa de som e tela sensível ao toque. “São vendidos como um dispositivo e não como uma droga, o que subverte a lei”, acrescenta Mazon.

Uma resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), de 2009, diz que “fica proibida a comercialização, a importação e a propaganda de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como cigarros eletrônicos, e-cigaretes, e-ciggy, ecigar, entre outros, especialmente os que aleguem substituição de cigarro, cigarrilha, charuto, cachimbo e similares no hábito de fumar ou objetivem alternativa ao tratamento do tabagismo”.

No começo deste ano, o STF (Supremo Tribunal Federal) manteve uma decisão da Anvisa que proíbe a fabricação e venda de cigarros com sabor.

Mas, na internet, sites oferecem todo tipo de líquido mentolado para uso nos vaporizadores. Um frasco com 60 ml (com 3 mg de nicotina), por exemplo, custa na faixa de R$ 100 e é encontrado nas versões mentoladas de morango, limonada, pêssego e melancia.

“Flavorizar o cigarro eletrônico o torna mais atrativo para crianças e adolescentes. A nicotina é mais viciante que a cocaína e que o álcool. Um jovem que consome nicotina antes dos 21 anos é muito mais propenso a ficar viciado”, alerta o médico.

Segundo a Anvisa, “a alegação de trazer menos risco à saúde transmite a falsa sensação de segurança e pode induzir não fumantes a aderirem ao cigarro eletrônico”.

“Os e-cigarettes também não têm comprovação de que promova a cessação de uso dos cigarros convencionais. Isso faz com que algumas pessoas façam o uso ‘dual’, ou seja, usam o cigarro eletrônico, mas não param de usar o cigarro convencional”, sustenta o órgão.

Ao R7, a Anvisa disse ainda que “possui equipe de fiscalização que monitora a internet regularmente para averiguar desvios. O comércio eletrônico dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar é fiscalizado diretamente pela Anvisa, entre os anos de 2017 e 2019, a Anvisa retirou cerca de 727 anúncios de Dispositivos Eletrônicos para Fumar, incluindo os cigarros eletrônicos”.

A fiscalização de lojas físicas cabe aos estados e municípios.

Fonte: R7

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