Mais uma derrota de Bolsonaro

Depois de as queimadas amazônicas paralisarem o acordo comercial com a União Europeia, a “nova diplomacia” brasileira vê escapar a perspectiva de entrada do Brasil na OCDE

O Brasil foi vítima colateral na disputa entre Estados Unidos e União Europeia (UE) pelo controle da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e não deverá entrar na organização tão cedo. O episódio revela o limite da guinada na diplomacia brasileira, promovida pelo governo Jair Bolsonaro.

Não é um caso isolado. O acordo comercial entre UE e Mercosul foi relegado ao limbo depois da alta nas queimadas amazônicas. A perspectiva de que seja assinado se tornou remotíssima depois da rejeição pelo Parlamento austríaco e das sucessivas negativas que partiram do governo francês. Em ambas as situações, o alinhamento automático com os americanos em fóruns internacionais funcionou contra as ambições brasileiras.

No caso do acordo comercial com os europeus, o desdém pelo governo do francês Emmanuel Macron – Bolsonaro divulgou imagens na cadeira do barbeiro no horário em que tinha audiência marcada com o embaixador francês – acarretou a reação que fez do Brasil numa espécie de pária internacional quando o assunto é meio ambiente. Macron encontrava ali o pretexto para atender à demanda interna do agronegócio francês e para pôr o acordo com o Mercosul num banho-maria cuja água já secou.

O caso da OCDE é mais complexo. Bolsonaro criou uma expectativa irreal de que o governo Donald Trump apoiasse imediatamente o acesso do país à organização, depois da promessa ouvida de Trump em março. Para satisfazer à demanda americana, o Brasil arcou com o prejuízo de abrir mão do status especial de país emergente na Organização Mundial do Comércio (OMC). Em vão. Na hora H, os americanos decidiram seguir seus interesses, não a palavra de Trump (cujo valor, por sinal, pode ser medido pela traição aos curdos na retirada das tropas americanas que monitoravam a fronteira entre Síria e Turquia).

Os interesses americanos em relação à OCDE são antagônicos aos europeus. A UE quer expandi-la para abarcar ex-países socialistas, como Romênia, Bulgária ou Croácia, e emergentes latinos, como Argentina ou Brasil. Os Estados Unidos a veem de modo mais ambivalente. De um lado, a OCDE tem importância ao estabelecer normas e padrões econômicos que permitem a expansão de seus negócios pelo mundo. De outro, funciona como empecilho ao exercício unilateral de poder. Por isso, são contrários à expansão nos moldes ditados pelos europeus.

É essa a lógica que rege a carta do secretário de Estado Mike Pompeo, revelada ontem pela Bloomberg. Nela, Pompeo manifesta apoio à entrada de Romênia e Argentina na OCDE. Omite todos os demais candidatos, entre eles o Brasil. Isso não significa, Pompeo e Trump trataram de reiterar depois da notícia, que os americanos tenham repentinamente se tornado contrários aos acesso brasileiro. Apenas que querem um cronograma mais lento.

A Argentina, a que Trump prometera acesso em 2017, estava na frente na fila. Romênia idem. Como a adesão à OCDE exige unanimidade dos países-membros, e como a UE não deverá apoiar o cronograma insinuado pela carta de Pompeo, a situação mais provável é o impasse. Estará, portanto, satisfeito o objetivo americano: evitar a expansão da organização ou, no mínimo, torná-la mais lenta.

Para a diplomacia brasileira, não há como disfarçar a derrota. Toda a aposta do governo Bolsonaro se resume a acreditar que a proximidade entre ele e Trump renderá dividendos ao Brasil. Na prática, a vida é mais dura. Países, reza o velho lugar-comum diplomático, não têm amigos, mas interesses. Simplesmente não há como conciliar o interesse americano ao brasileiro em todas as áreas.

Dois exemplos bastam para entender isso. O primeiro é a Venezuela. Seria confortável para os Estados Unidos se o Brasil assumisse o ônus da transição política, com a derrubada do ditador Nicolas Maduro. Quando veio à tona a possibilidade de intervenção militar, porém, ficou claro que o Brasil quer distância de qualquer conflito na região. Os militares se opuseram a todas as iniciativas, que até contavam com a simpatia do Itamaraty. Os americanos descobriram que, se estiverem mesmo a fim de derrubar Maduro, terão de arcar com quase todo o ônus.

O segundo exemplo é a expansão da China pela América Latina. Os Estados Unidos adorariam que o Brasil impusesse freios à entrada de capital chinês, em especial nos leilões da telefonia celular de quinta geração (5G). Os chineses assumiram o protagonismo no setor por meio da fabricante de equipamentos Huawei e de uma ação agressiva no desenvolvimento da tecnologia (leia mais nesta reportagem que publiquei na revista Época). Não há como o Brasil aceitar excluí-los, se oferecem condições mais competitivas e preços melhores.

A tentação de acreditar num novo alinhamento geopolítico em torno do nacional-populismo, na aliança de líderes como Trump e Bolsonaro combatendo o tal “globalismo”, não passa de quimera ideológica. Em política externa, o que existe são interesses – de todos os atores, sejam governos, sejam não-governamentais. A diplomacia brasileira sempre soube tão bem disso quanto a americana. Pena que, nos últimos meses, parece ter esquecido.

Fonte: G1

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