Fotógrafa radicada em Fortaleza promove campanha para publicar fotos de crianças africanas em livro

Financiamento coletivo de “Cifano – Pulsação África” segue até 9 de fevereiro, via Catarse; obra traz registros que Ana Mundim fez no convívio com pelo menos 100 crianças de uma escolinha comunitária na cidade de Muta, em Moçambique

Em abril de 2017, os olhares de Quina, Cristina e outras tantas crianças moçambicanas cruzaram com os da fotógrafa Ana Mundim. Voluntária no país pela ONG Missão África, a carioca radicada em Fortaleza passou 12 dias entre as cidades de Dondo, Mutua e Beira, colaborando com processos pedagógicos e registros fotográficos das comunidades visitadas. Agora, ela realiza uma campanha de financiamento coletivo para o lançamento do fotolivro “Cifuno – Pulsação África”.

“A questão da fotografia tem a ver com o registro desse processo da missão, mas também com esse lugar de colaborar com apoios possíveis para que os trabalhos com a comunidade continuem sendo feitos”, introduz Ana, cujo objetivo é que todo valor obtido com a venda das obras seja revertido em recursos para as crianças atendidas pela ONG a qual segue vinculada.

Sediada em Uberlândia (MG), a Missão África está em atividade no Brasil e em Moçambique desde 2012, com o intuito de transformar a realidade de pessoas que vivem em situação de miséria e vulnerabilidade. Entre as frentes de atuação, estão os trabalhos com nutrição, escolinhas e desenvolvimento comunitários. “Mas a ideia não é só levar esses apoios do Brasil para lá, e sim criar uma possibilidade de troca de conhecimento entre quem vai e a comunidade local”, contextualiza a voluntária.

Nos primeiros dias em Moçambique, Ana fez retratos de algumas crianças, imprimiu, emoldurou e entregou às famílias. A atitude provocou a comoção dos pais que, até então, não tinham nenhum registro fotográfico dos filhos. Esse retorno positivo estimulou a fotógrafa a fazer um fotolivro.

Conflitos éticos

Os últimos três anos, porém, foram de intensa reflexão da profissional sobre seu papel enquanto mulher branca, brasileira e de classe média em um projeto que lida com um tema tão complexo e constantemente debatido pelo movimento negro. Em 2020, aliás, “o mito do branco salvador”, que exalta a generosidade da branquitude em detrimento da miserabilidade da negritude, foi extensamente discutido em virtude da exposição de imagens polêmicas do voluntariado da influencer e ex-BBB Rafa Kalimann na internet.

“A grande questão nesse processo posterior de elaboração do livro é, no que tange a questão narrativa, cuidar para compartilhar que sim, essa comunidade existe, é de muita luta, dificuldade, miserabilidade, mas de muita dignidade, força, resistência, por meio da alegria, da comunhão, do desejo de estar com o outro. Essa força, essa simbologia da resistência pelo amor, pelo afeto, pelo carinho é o que a gente – eu, a ONG, as pessoas da comunidade que continuaram em contato nesse processo e o Ademar Assaoka, que fez a edição do livro – queremos transmitir”, observa Ana.

A maior preocupação da fotógrafa é, portanto, “mostrar a força do amor”; e o título do fotolivro, escolhido por Francisco Taiobo, uma jovem liderança de Dondo, carrega exatamente esse sentimento. “A palavra Cifuno significa amor. Ela vem do dialeto sena, a terceira língua bantu de Moçambique, que as crianças falavam”, recorda a voluntária.

Francisco, aliás, assim como outros moçambicanos convidados, conta com um texto pessoal no livro. Ele foi um dos que incentivou Ana a dar prosseguimento ao projeto. “Nós começamos a ser uma geração que inspira as outras. A garra das crianças representa como elas precisam vencer os obstáculos e transitar pelos momentos de dificuldade para ter um futuro melhor. Eu foco na luta”, expressa-se o líder comunitário de 21 anos. “Ele foi muito especial para a gente pensar mesmo na construção dessa obra. Esse livro não é meu, é das pessoas que estão nele e da comunidade”, completa a fotógrafa.

Financiamento

Com 96 páginas e impresso em preto e branco, a obra traz registros que Ana fez no convívio com pelo menos 100 crianças de uma escolinha comunitária na cidade de Muta. “Elas queriam muito ser fotografadas e queriam ver a fotografia delas. Então, eu mostrava e elas diziam se tinham ficado satisfeitas ou não com o resultado”, diz. Esse foi o primeiro “filtro editorial”, em seguida aprimorado pelo olhar de Ademar Assaoka.

“Eu realmente tive que pedir colaboração na edição do livro, porque se cria um vínculo afetivo muito forte. É uma comunidade que ensina muita coisa e que acolhe muito, enfim, troca muita dor e muita poesia ao mesmo tempo, muita alegria e muita vitalidade. Esses processos de morte e vida, o tempo todo entrelaçados, e os laços que foram construídos dificultariam as escolhas das fotos por mim. Foi importante ter alguém de fora para colaborar com esse trabalho, e que fez uma costura narrativa muito a partir dos textos das pessoas, o que também tem uma relevância”, evidencia.

A fim de custear esse processo de editoração e a impressão de mil exemplares, a fotógrafa abriu um financiamento coletivo até 9 de fevereiro cuja meta é R$ 12.376. De acordo com a doação, os colaboradores podem receber como recompensa o livro “Cifuno – Pulsação África” (a partir de R$ 200), o livro de poemas “Corpo em quatro atos” (a partir de R$ 100) ou um print em papel fotográfico de uma foto da obra em financiamento (a partir de R$ 50).

Independentemente de conseguir o recurso total, porém, Ana está comprometida a publicar o livro e a entregar os exemplares impressos para a ONG Missão África vender em sua loja virtual.

“As crianças me ensinaram muito sobre a vida e tenho esse desejo de fazer esse processo de um modo respeitoso. Espero que eu esteja conseguindo, porque é um compromisso de fazer com que o meu lugar de ocupação no mundo possa contribuir não só para minha própria transformação, mas para essas pessoas também. Foram tantos presentes que eles me deram de olhar, de toque, de relação, de fala, de sonho… Que isso seja retribuído para eles, não só na poética da construção do livro, mas financeiramente, para resolver problemas de ordem logística”, conclui Ana.

 

Fonte: Diário do Nordeste

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